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Os heróis do parquinho – 07/08/2025 – Haja Vista

Os heróis do parquinho - 07/08/2025 - Haja Vista


Diminuí o passo em vez de acelerar quando percebi que estava sendo perseguido…

“Quem são vocês?”, perguntei assim que se colocaram ao meu lado. “Somos crianças do prédio e viemos te ajudar!”, respondeu Alice, que já me segurava pela mão direita, enquanto seus amiguinhos, na faixa dos cinco anos, faziam minha escolta pelo outro lado. O trio de heróis do parquinho seguiu comigo até a saída do condomínio.

No percurso, eu quis saber como ela aprendeu a ajudar cegos tão nova. A menina explicou que já tinha visto o pai fazer o mesmo comigo.


Oportunidades para que ele me levasse não faltaram. Mesmo que o caminho entre a saída do meu bloco e a portaria não seja dos mais difíceis, foram alguns meses até eu passar a acertar sempre todas as curvas e não ir parar no bloco errado, no estacionamento ou no salão de festas na hora de pegar na portaria o lanche pedido pelo delivery.

Este é o primeiro prédio novo em que venho morar desde que minha visão se resume a percepção de luzes e uma ou outra cor dependendo da iluminação. A necessidade de adaptação se somou a minha capacidade altíssima para a distração e o esquecimento. Como resultado, logo nas primeiras semanas fiz uma série de pequenos amiguinhos como Alice e sua turma, que me salvaram uma dezena de vezes.

A Manuzinha, 4, primeira a aparecer, me contou que aprendeu a ajudar aos mais velhos cuidando da avó. No começo, as outras crianças até ficavam confusas quando ela largava de uma brincadeira de repente e vinha até mim ou minha esposa correndo assim que nos via. Ela só volta depois que embarca a gente no elevador e aperta o botão de nosso andar, mesmo já sabendo o que é Braille e que, com as mãos, podemos achar o sétimo por conta própria.

Ainda sobre botões lá de casa, mas falando de um menino mais alto do que eu, meu sobrinho, Bernardo, 12, ganhou elogios no grupo de WhatsApp do condomínio ao tornar a academia mais acessível.


Ao me ver correndo na esteira, ele percebeu que eu só podia usar botões que acionam três níveis de velocidade: “muito devagar”, “rapidíssimo” e “assim você vai cair”. Os demais eram lisos, impossíveis de serem sentidos com o tato. Subiu com um pace ainda mais rápido para meu apartamento buscar uma fita isolante e improvisou na hora adesivos para os botões de aumentar e diminuir a velocidade aos pouquinhos.

Aceitar tantas ajudas de meninos e meninas me ofereceu, junto com o alívio de sair da enrascada, uma pitada de embaraço. Afinal, adulto é quem cuida de criança.

Mas, pensando de outro modo, nada melhor do que a convivência desde muito pequenos com as diferentes formas de sentir o mundo e se locomover para que esses pequeninos sejam um dia jovens e adultos mais abertos a conviver e a colaborar com quem é diferente. Sem passar a essas crianças nenhuma obrigação ou responsabilidade para a qual não estejam preparados ou colocar ninguém em risco, o incentivo à gentileza infantil só faz bem a todos.

Por isso hoje, mesmo conhecendo bem o caminho para chegar em casa, sigo bem devagarinho para ver se sou flagrado por meus amiguinhos. Assim a gente pode andar um pouquinho juntos por esse caminho que leva a um futuro de mais respeito e afeto.


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Fonte: Folha de São Paulo

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