Anabolizantes aumentam a violência? – 19/08/2025 – Bruno Gualano

Anabolizantes Aumentam A Violência? - 19/08/2025 - Bruno Gualano

Anabolizantes aumentam a violência? – 19/08/2025 – Bruno Gualano


Uma crise de ciúmes teria levado o ex-atleta Eduardo Pereira Cabral a desferir 61 socos contra o rosto da namorada, desfigurando-a. Já o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior foi preso em flagrante numa academia logo após balear fatalmente um gari, por desavença de trânsito.

Os agressores compartilham traços que renderiam uma análise socioantropológica interessante. Aqui me aterei a uma única característica física que os conecta: um corpo descomunalmente musculoso. Seriam usuários de esteroides anabolizantes? A pergunta importa, pois suspeita-se que a testosterona possa aumentar a propensão à violência. Vejamos o que diz a ciência.

Na maioria das espécies, machos tendem a ser mais agressivos que as fêmeas, e a redução da testosterona, por meio de castração, diminui essa tendência. Esse hormônio atua em regiões cerebrais que regulam emoções e comportamentos agressivos, como a amígdala e o córtex orbitofrontal. Entretanto, dentro da faixa normal de produção, a testosterona não parece estar associada à violência.

Já quando usada em excesso, a testosterona pode prejudicar o controle cognitivo sobre a agressividade, afetando a conexão entre amígdala e córtex frontal. Isso tende a aumentar a percepção de ameaças, reduzir empatia e precisão na leitura social, favorecer a tomada de riscos e diminuir a cooperação. Alguns usuários relatam mudanças severas de humor ou personalidade, incluindo comportamentos agressivos atípicos.

A literatura identifica três padrões de violência ligados ao uso de anabolizantes: a “roid rage”, com explosões desproporcionais a provocações mínimas; o “terminator”, caracterizado por agressão premeditada e calculada; e o “sturmschnapps”, quando os esteroides são usados pouco antes de crimes para aumentar agressividade e autoconfiança. Entre os estereótipos de usuários criminosos estão obsessão por injustiças percebidas, sensação de invencibilidade e falta de consciência sobre o próprio comportamento.

Embora pesquisas indiquem que usuários de anabolizantes têm maior risco de condenação criminal, fatores como uso de outras drogas e, sobretudo, histórico de traços antissociais complicam essa relação.

Há, de fato, boas evidências de que os anabolizantes per se não “causam” agressividade, mas potencializam tendências sociais pré-existentes, especialmente em reposta a ameaças do status social – a chamada “hipótese do desafio”.

Estudos com jogos econômicos, nos quais o status é conquistado por ofertas generosas e reputação de confiabilidade, mostram que a administração de testosterona pode até aumentar generosidade e outros comportamentos pró-sociais. Nisso se ancora o neurobiólogo Robert Sapolsky, ao sugerir que, se há excesso de violência mediada pela testosterona, parte da explicação reside no fato de “recompensarmos a violência com status tão facilmente”.

Nos tribunais dos Estados Unidos, a defesa de “roid rage” já foi usada como atenuante para crimes violentos. Mas cumpre lembrar que a biologia influencia o comportamento –não o determina. Num clássico experimento da década de 1970, primatas de ranking médio que receberam testosterona exibiram maior agressividade, mas não contra o macho alfa –a violência fora deslocada para os indivíduos não dominantes. Essa “macheza” seletiva parece se repetir entre homo sapiens, como ilustram os casos que abrem esta coluna.

Se anabolizantes não farão do monge budista um transgressor brutal, não podemos ter a mesma certeza quanto ao sujeito imoral –ainda que travestido de cidadão de bem.


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Fonte: Folha de São Paulo

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