Comer só de olho em proteína tira prazer e gera ansiedade – 21/08/2025 – Equilíbrio

Comer Só De Olho Em Proteína Tira Prazer E Gera Ansiedade - 21/08/2025 - Equilíbrio

Comer só de olho em proteína tira prazer e gera ansiedade – 21/08/2025 – Equilíbrio


O que antes era um prato de comida com um suculento filé de carne, arroz e feijão bem temperadinhos e uma salada de alface e legumes com azeite e limão passou a ser visto como um amontoado de proteína, carboidratos, fibras e gordura —bem menos apetitoso e mais utilitário.

As embalagens de produtos industrializados nos supermercados não só estampam como alimentam esse conceito, com cada vez mais itens —de iogurte a granola e macarrão— “ricos em proteína”, “low carb” ou “com menos gordura”.

Pensar a comida assim tem nome: nutricionismo, fusão das palavras reducionismo nutricional.

O conceito foi cunhado por Gyorgy Scrinis, professor associado de política e diretrizes alimentares da Faculdade de Ciências Veterinárias e Agrícolas, na Universidade de Melbourne, autor de “Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional” (Editora Elefante), e depois popularizado na obra do jornalista Michael Pollan.

Nutricionismo, segundo Scrinis, é uma abordagem que favorece a análise fragmentada e isolada de alimentos e nutrientes, retirados do contexto de padrões alimentares nos quais são consumidos —como se a feijoada, o cuscuz e o bolo de chocolate de aniversário perdessem o sabor e suas cargas afetiva e cultural e fossem analisados friamente sob a lente de um microscópio.

“Essa visão faz sentido para o estudo da nutrição, mas ensinar o paciente a pensar assim não faz sentido. Esse reducionismo complicou algo que a gente sempre soube fazer bem, que é comer. Virou algo complexo que gera culpa, ansiedade e a impressão de que ninguém faz direito”, diz a nutricionista Sophie Deram.

A nutricionista Marina Nogueira, dona do perfil @nãocontocalorias no Instagram, afirma que é muito difícil sentir prazer comendo dessa forma, de olho em proteínas, carboidratos, lipídios etc.

“Vira obsessão. As pessoas me falam ‘eu não consigo pensar em outra coisa’, desenvolvem transtornos sérios. Tem gente que viaja e toma shake de proteína depois de comer um prato de massa em um restaurante local. A pessoa não está feliz, está o tempo todo pensando em comer ‘bem’ e não consegue parar.”



Vira obsessão [pensar na quantidade de proteínas e carboidratos]. As pessoas me falam ‘eu não consigo pensar em outra coisa’, desenvolvem transtornos sérios. Tem gente que viaja e toma shake de proteína depois de comer um prato de massa em um restaurante local. A pessoa não está feliz, está o tempo todo pensando em comer ‘bem’ e não consegue parar

A proteína do shake é a vedete do marketing alimentar da vez. Basta fazer compras em um mercado com atenção para ver como ela aparece com destaque nos rótulos em uma miríade de produtos —geralmente ultraprocessados.

“Essa suposta necessidade maior de proteína é para vender. É um mercado que está bombando de opções e a maioria é de alimentos ultraprocessados, disfarçados de alimentos bonzinhos com apelo para a saúde”, afirma Deram.

A relação entre nutricionismo e o mercado de ultraprocessados é um dos alvos de estudo de Gyorgy Scrinis. Segundo artigo que ele publicou em 2020 no periódico científico BMJ, os fabricantes desses alimentos assumiram o papel de principais promotoras e defensoras desse modelo, em parte por causa de suas atividades de marketing, que se concentram em nutrientes ou ingredientes isolados e direcionam a atenção do público para essa visão.

“Ao contrário das corporações farmacêuticas, os fabricantes de alimentos não precisam fazer declarações explícitas de saúde ou de prevenção de doenças em seus rótulos para comunicar benefícios à saúde aos consumidores. Em vez disso, podem recorrer a alegações simples de nutrientes e ingredientes em seus produtos —como ‘rico em’ proteína, fibras, gorduras ômega-3 ou antioxidantes— que funcionam como alegações implícitas de saúde. Essas alegações têm a intenção de produzir o que poderíamos chamar de ‘benefícios imaginados para a saúde’, por meio dos quais os consumidores estabelecem uma ligação entre determinados componentes alimentares e supostos efeitos benéficos”, escreveu ele.

Deram lembra que a proteína é importante, traz saciedade e ajuda na na construção de músculos, mas uma pessoa comum que come carne, ovo e iogurte (entre outros itens, incluindo vegetais) no dia a dia provavelmente não está com deficiência desse macronutriente e não precisa de suplementos industrializados. “A OMS [Organização Mundial da Saúde] reiterou em 2024 que a quantidade adequada para um adulto é de 0,8 g de proteína por kg, mas você vê blogueiros fazendo terrorismo alimentar e falando em 2 g por kg, de forma desnecessária.”

Segundo Nogueira, as maiores vítimas do nutricionismo são mulheres e praticantes de atividade física no geral. Além da pressão estética, elas também se preocupam mais com a saúde e procuram mais profissionais de saúde —que podem acabar prescrevendo dietas que as obrigam a olhar para o prato de forma utilitária. “Além disso, mulheres engravidam, menstruam, têm a menopausa. Tudo isso vira fermento para novas ideias de suplementos e supostas necessidades.”

Se você quer saber se o nutricionismo está mexendo com você, é importante ver se há prejuízos sociais, financeiros ou ansiedade grande em relação à comida —por exemplo, abrir mão de passeios, ficar muito preocupado porque não sabe qual vai ser a comida do evento (ou qual é a composição dela) ou gastar além do que poderia com suplementos.

O dinheiro é uma parte importante da equação, já que dietas com base no nutricionismo também funcionam como objeto de desejo. Proteínas, afinal, são o nutriente mais caro do prato. “Comida é marcador de classe social, e os produtos industrializados enriquecidos também são. Dieta recheada de itens proteicos é coisa de rico, e muitos influencers vendem esse estilo de vida”, diz Nogueira.

Para não cair na armadilha do nutricionismo, as dicas são cozinhar mais e desembalar menos, evitar produtos ultraprocessados e fazer as pazes com a comida para vê-la não só como combustível.

“Não vivemos só de calorias e nutrientes, precisamos de equilíbrio e de todo um contexto. Comida é ato social, é cultura, é festa”, afirma Sophie Deram.

O que é nutricionismo

O conceito criado pelo cientista Gyorgy Scrinis define a análise de nutrientes e ingredientes da comida isolados —como proteína, carboidrato, lipídios, vitaminas etc.

Riscos do nutricionismo

  • Preocupação exacerbada com a composição do prato

  • Desconsideração da cultura alimentar em que a comida está inserida

  • Perda do prazer em comer

  • Prejuízos sociais, como evitar festas e outros eventos

  • Prejuízos financeiros com o gasto de produtos ‘ricos em proteína’, mais caros

  • Prejuízos para a saúde com o consumo de suplementos e itens ultraprocessados

Como não cair nessa armadilha

  • Esqueça a balança e a quantidade de gramas de cada macronutriente, e foque no equilíbrio das refeições como um todo – você pode comer ovos de manhã e um prato de massa no almoço e está tudo bem

  • Coma por prazer, e não por culpa, raiva ou obrigação

  • Ouça seus gostos, sua fome e sua saciedade para fazer escolhas que fazem bem para você

  • Faça da refeição rituais gostosos com amigos, colegas e familiares

  • Lembre-se que a saúde começa na cozinha, e não no consultório nem nas gôndolas de produtos prontos do supermercado



Fonte: Folha de São Paulo

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