Crédito ampliou consumo, mas não tirou classe C da pobreza, diz autor
UOL – No livro você faz referência a uma pesquisa dos anos 1970 e 1980, da professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) Ermínia Maricato, que já falava da presença de bens modernos nas casas dos operários. Qual a diferença daquela época?
Santos – ma diferença é que o sujeito que passou a consumir a partir de 2005 começou a acessar produtos em ciclos de consumo cada vez mais velozes, e isso produziu uma certa euforia. Para justificar um ciclo mais veloz, você precisa de produtos que estraguem mais rápido e de campanhas te falando o tempo todo que tem uma coisa melhor. Antes, as famílias poupavam para comprar. Comprava-se menos, mas o produto tinha que durar. Essa cultura de poupança se perdeu. Hoje, os produtos de crédito se capilarizaram nas estruturas financeiras e de varejo. E o sistema financeiro dá acesso ao consumo de forma desigual: para as classes com maior poder aquisitivo, ele é mais generoso; para as de menor renda, mais perverso. O pobre já acessa as piores oportunidades de emprego, as piores condições de bairro, de infraestrutura e serviços e ainda tem que pagar mais pelo mesmo produto.
UOL – Considerando onde você mora e a qualidade dos serviços públicos, um projeto de urbanização de favela poderia fazer a diferença na superação da pobreza?
Santos – im. Uma concepção mais profunda de superação da pobreza exigiria considerar onde a pessoa mora e a qualidade dos serviços públicos: saneamento básico, eletricidade, telecomunicações, segurança pública, escola e lazer. Na pesquisa, pedi para as pessoas avaliarem essas estruturas. A área de lazer foi a mais criticada. E também segurança. As infraestruturas mais bem avaliadas foram telecomunicação e eletricidade — justamente as duas privatizadas e que viabilizam o uso dos eletroeletrônicos. A Eletropaulo, Vivo e TIM não estão fazendo filantropia. Chegaram às franjas da cidade porque é um mercado importante.
UOL – O CEU (Centro Educacional Unificado) não tem impacto?
Santos – Muito. Mas se a gente for olhar o mapa de equipamentos de cultura na periferia, é uma vergonha. E o que vai ganhando tração são as igrejas evangélicas e os bares. O CEU foi o último grande projeto desta cidade com uma concepção filosófica de formação de cidadania. Esse tipo de equipamento é um salto qualitativo na vida das pessoas. Talvez se os governos progressistas olhassem mais para a periferia como as igrejas evangélicas estão olhando, entenderiam que o morador da periferia não é mais o operário. A forma de organização para chegar nessa população não é mais o sindicato. Esse morador é um prestador de serviços, um comerciante, um taxista. O patrão está na Califórnia.
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