O Grande Perdedor – 02/09/2025 – Bruno Gualano
Nos anos 2000, The Biggest Loser (no Brasil, O Grande Perdedor e Quem Perde, Ganha) tornou-se um fenômeno de audiência nos EUA. O reality da NBC metia pessoas gordas numa competição para ver quem perdia mais peso, premiando o vencedor —”o grande perdedor”— com US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão). Uma ninharia diante dos bilhões arrecadados pela franquia em publicidade, merchandising, produtos licenciados e na venda internacional do formato. Os bastidores do programa são contados na série documental Magreza da TV.
Alheio a qualquer dado empírico sobre obesidade ou estilo de vida da população norte-americana, o produtor executivo JD Roth define seu show como um movimento que inspirou milhões a buscar uma vida mais saudável. A retórica deve ter-lhe servido como atenuante de consciência para desenhar um espetáculo macabro, que gerou lucros astronômicos às custas da humilhação de pessoas gordas, desesperadas por aceitação social e de si mesmas. Como revelam os angustiantes depoimentos da série, o reality causou traumas e transtornos psíquicos que ainda acompanham seus participantes.
Em dado momento, Roth admite saber que, sem mudanças na dieta, os treinos pouco contribuem para a perda de peso. Ainda assim, assume sem pudor que, em nome da audiência, submeteu participantes fisicamente vulneráveis a provas extenuantes e a um regime de treinamento militar. Uma das vítimas foi Tracey Yukich, que, durante um desses desafios, sofreu rabdomiólise —condição grave em que a destruição do tecido muscular libera substâncias capazes de causar insuficiência renal e outras complicações.
Os algozes disfarçados de treinadores eram Bob Harper e Jillian Michaels, expoentes do mundo fitness que encarnaram com rigor o papel de abusadores profissionais. Eram eles os responsáveis pelas cenas mais degradantes, em especial os vômitos por exaustão, motivo de gozo maior dos produtores. Curiosamente, o documentário revela que alguns participantes chegavam a nutrir um vínculo de afeto com seus treinadores —uma espécie de síndrome de Estocolmo aplicada aos sequestradores de seus corpos.
O ponto alto da produção é expor a luta permanente dos ex-participantes contra a balança. Um estudo com 14 deles já havia demonstrado uma queda drástica no metabolismo após a competição, que persistiu mesmo após a recuperação de dois terços do peso perdido. Esse fenômeno, conhecido como adaptação metabólica, atua como um “modo de economia de energia” acionado pelo exercício, dificultando a manutenção do emagrecimento.
O documentário, porém, não vai além dessa narrativa estritamente biológica. Assume a obesidade como destino implacável de um indivíduo geneticamente desafortunado, dotado, agora, de um metabolismo disfuncional.
Essa leitura desconsidera que o excesso de peso é fruto de um ambiente obesogênico, marcado, sobretudo, pela abundância de alimentos de péssima qualidade. Ao reduzir a obesidade a uma questão do indivíduo, negligenciando o contexto que o engorda, a série repete o mesmo erro estigmatizante do reality que denuncia.
Outro deslize é insinuar que o fim do programa marca o término de uma era cultural. O “zeitgeist” do Biggest Loser sobrevive nas redes do mundo fitness. Produtores de conteúdo e treinadores predadores agora se apresentam como influencers. Dietas e treinos extremos seguem firmes e aditivados com anabolizantes, canetas emagrecedoras, plásticas e suplementos. Já os consumidores dessa indústria —e que por ela são consumidos— atendem por seguidores. Não é difícil intuir quem são os grandes perdedores nesse show.
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