O milionário que deixou Wall Street para ser paramédico – 05/09/2025 – Mercado

O Milionário Que Deixou Wall Street Para Ser Paramédico - 05/09/2025 - Mercado

O milionário que deixou Wall Street para ser paramédico – 05/09/2025 – Mercado


A mulher estava caída em uma escadaria do metrô, então Jonathan Kleisner se ajoelhou para olhá-la nos olhos. “Estamos aqui para ajudar, OK?”, disse. “Pode me dizer o que aconteceu?”

Alguém havia ligado para o 911 —serviço de emergência dos EUA, equivalente ao 192 no Brasil— para relatar uma mulher aparentemente tendo uma convulsão epiléptica. Chegando em sua ambulância, Kleisner suspeitou de overdose, intuição confirmada pelas seringas usadas espalhadas ao lado da paciente.

A mulher, que havia desmaiado minutos antes, abriu os olhos, observou o homem à sua frente —magro, com postura profissional e uniforme azul— e se levantou quase sem cambalear. Murmurou que estava bem e começou a subir as escadas, sem saber que se afastava de um dos paramédicos mais bem treinados do país.

Para Kleisner, o caso não foi muito desafiador. Ainda assim, ele preferia isso ao antigo emprego em Wall Street.

“Recebemos muitos chamados insignificantes como este,” disse depois que guardaram o equipamento. “Mas nosso forte são as ocorrências graves. Estou falando de amputações, pessoas atropeladas por trens, corpos em pedaços”.

A transição de Kleisner de milionário operador de commodities para paramédico novato ocorreu há 13 anos, quando ele trocou o que via como autoenriquecimento niilista pela missão de salvar vidas.

Quando abandonou Wall Street, ganhava milhões por ano, mas estava infeliz. “Eu era uma pessoa que não criava nada, não dava nada a ninguém,” afirmou Kleisner, 55. “Às vezes me sinto como um fora-da-lei tentando chegar ao céu. Ou talvez conseguir algumas boas noites de sono”.

Kleisner via sua mudança de carreira como uma fuga. Surpreendentemente, muitos traços do antigo eu se encaixaram no novo: adrenalina, domínio de regras complexas, competição constante para provar rapidez, decisão e inteligência.

Ele poderia se aposentar em sua cabana nas Catskills, pescando, lendo e cuidando de abelhas. Em vez disso, continua como paramédico de resgate do Corpo de Bombeiros de Nova York, onde começou ganhando US$ 32 mil e agora recebe US$ 110 mil.

“As pessoas me perguntam: ‘Por que você arriscaria sua vida por US$ 18 por hora?'”, ele disse. “A resposta não é muito diferente do que diria em Wall Street. Sou competitivo. Sou muito bom no que faço”.

Entre os 4.500 socorristas do departamento, menos de 60 são paramédicos de resgate, treinados para salvar bombeiros de incêndios ativos, resgatar pessoas presas sob metrôs ou descendo poços de elevador com rapel. Kleisner é um dos cinco instrutores principais.

“Jonathan é o topo da montanha,” disse o capitão Frederick Saporito, veterano de 40 anos do Corpo de Bombeiros. “Ele tem tudo”.

Kleisner fala sobre o trabalho com confiança, sem falsa modéstia. Ele aprecia tanto Wall Street quanto a emergência por não tolerarem pessoas despreparadas.

Não sabia o que queria ser, exceto bem-sucedido. Frequentou a Fordham Prep, depois a Universidade de Boston, abandonando o curso antes da formatura para um emprego de US$ 40 mil em Wall Street em 1991.

“Era mais dinheiro do que eu já tinha visto,” disse ele. Mas o ambiente competitivo e predatório o cansou. “O cara ao meu lado me esfaquearia com um lápis pelos US$ 30 na carteira se pudesse.”

Não houve momento de ruptura. A saída de Wall Street foi gradual. Em 2008, prestes a escalar o Monte Rainier, uma colega lesionou gravemente o joelho. Resgatados por paramédicos montanhistas, Kleisner se impressionou com o trabalho de alto risco.

De volta a Nova York, inscreveu-se em curso de técnico em emergências médicas na Hunter College e, posteriormente, se inscreveu em um vaga na academia do Corpo de Bombeiros.

“Era como um protesto. Não estava falando sério. Mas estava cansado de Wall Street”.

Enquanto ainda trabalhava em finanças, voluntariava um dia por semana no Central Park. Salvou um homem com choque de desfibrilador, experiência que marcou sua trajetória.

Depois de dois anos, foi convidado para a academia de paramédicos. Tinha esposa, filhos e trabalho bem remunerado, mas escolheu entrar no treinamento. Passou no exame físico, completou 14 semanas de curso e escolheu trabalhar no Bronx.

Minutos após o primeiro turno, atendeu a um tiroteio fatal, que o abalou. Inscreveu-se para mais treinamento e subiu rapidamente na carreira, de técnico básico a paramédico de resgate, e depois instrutor.

Em Manhattan, apelidada de “Hollywood” pelos paramédicos, lidou com atendimentos complexos. Um dos casos marcantes envolveu um homem de 447 quilos no Harlem, que teve de ser retirado com redes de carga enquanto bombeiros quebravam paredes. Kleisner e seu parceiro mantiveram a respiração do paciente por horas com técnicas improvisadas.

Outro caso devastador foi o incêndio do Twin Parks North West, em 2022. Kleisner preparou Cyanokits para neutralizar cianeto, administrou medicamentos e realizou RCP (reanimação cardiopulmonar), incluindo em uma menina de 11 anos que não resistiu. “Eu a carrego comigo o tempo todo,” disse.

Apesar da experiência, Kleisner não é oficial, mas soldado do Corpo de Bombeiros, desprezando chefes que trabalham em escritórios enquanto ele lida com suor, urina e sangue. Fez uma tatuagem com a frase latina “Sic Transit Gloria Mundi”, que agora faz parte de um mosaico do pulso ao ombro.

Após uma década, o impulso de assumir os trabalhos mais difíceis o levou ao incêndio mais mortal em 30 anos. Após dois plantões, percebeu seu limite físico e emocional.

Hoje, quando chamado para emergências envolvendo crianças, faz pausas para respirar e meditar. Paramédicos recebem pouco suporte de saúde mental, e Kleisner, diferentemente de colegas, pode pagar por terapia e tirar férias.

Ele aprendeu que não há como escapar das memórias traumáticas. “Esse trauma não vai embora. Você tem que aprender a viver com tudo isso.”

Finalmente, os objetivos de Kleisner mudaram: não há glória nem dinheiro em jogo. A única questão é resistência.



Fonte: Folha de São Paulo

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