Psicodélicos: cogumelos para cefaleia em salvas – 28/08/2025 – Virada Psicodélica
Já ouviu falar de cefaleia em salvas? Sean Slattery gostaria de nunca ter ouvido falar da dor de cabeça considerada por muitos a pior forma de nevralgia sofrida por seres humanos. Ele queria morrer, mas foi salvo pelos cogumelos “mágicos”.
A história de Slattery e várias outras estão bem contadas no livro “A Revolução dos Psicodélicos – O Movimento que Transforma a Medicina”, de Joanna Kempner (Amarilys, 2025). Obra duplamente útil, ao apresentar de modo didático e vívido uma dor excruciante e as agruras psicodélicas dos sofredores para controlá-la.
Não há cura para a cefaleia em salvas, assim chamada pela periodicidade regular dos surtos que parecem romper um dos lados da cabeça. No caso de Slattery, a excitação do nervo trigêmio atrás de um dos olhos que, seis vezes ao dia, o levava a gritar com a cara numa almofada e a bater a testa no chão para tentar desmaiar.
Não se trata de enxaqueca, que inferniza a vida de 30 milhões de brasileiros. Estima-se que um centésimo disso, 300 mil pessoas por aqui, padeça com a cefaleia em salvas. Na maioria, homens com ataques diários que se repetem 1 a 8 vezes, em salvas que duram geralmente de 1 a 3 meses.
O título do original, “Foras-da-lei Psicodélicos” alude ao fato de pacientes encontrarem alívio numa substância ilegal, a psilocibina, composto psicodélico dos cogumelos do gênero Psilocybe. Kempner conta as peripécias do grupo online de autoajuda Clusterbusters (o nome da condição em inglês é “cluster headache”).
Militantes do movimento, que em português poderia se chamar Salva Dores, chegam bem perto de prescrever cogumelos ditos “mágicos” como medicação. Limitam-se a ensinar como comprar esporos –o equivalente a sementes dos fungos, que não contêm psilocibina e, portanto, não estão proibidos– ou como cultivá-los em casa –essa sim uma atividade ilegal.
Kempner conta que, nos EUA, esse cultivo raramente resulta em processo criminal. Autoridades se mostram tolerantes, seja porque grande parte dos “busters” são pessoas brancas afluentes, seja porque psicodélicos vêm perdendo estigma com o avanço de pesquisas clínicas para tratar depressão e estresse pós-traumático.
A autora, socióloga da Universidade Rutgers, dedica atenção aos fenômenos sociais que condicionam tanto a dificuldade de pacientes em obter atenção médica quanto o chamado renascimento psicodélico. O livro traz boa dose de informações históricas e atuais sobre os dois processos e sua interligação, além de ser uma fonte copiosa de biografias sofridas.
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