Psicodélicos: começa em Denver maior conferência – 16/06/2025 – Virada Psicodélica
Com relação a 2023, quando aconteceu a última conferência Psychedelic Science, o estado de espírito de pesquisadores e militantes está bem alterado. Inquietação e dúvida predominam no povo que retorna a Denver, Colorado (EUA), para o encontro internacional mais importante da área, organizado pela Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps, em inglês), que começa nesta segunda-feira (16).
Dois anos atrás, mais de 12 mil pessoas circularam pelo centro de convenções da cidade. O clima então era de euforia com a expectativa de aprovação do primeiro tratamento de psicoterapia apoiada por psicodélico (PAP), com MDMA (ecstasy) para transtorno de estresse pós-traumático, submetido pela empresa Lykos à agência americana de fármacos, FDA.
Não aconteceu. Em agosto a FDA rejeitou o pedido da Lykos e pediu um terceiro teste clínico de fase 3 para desfazer dúvidas sobre segurança, peso das expectativas, cegamento (rigor na distribuição aleatória de voluntários entre os grupos experimental e de placebo) e padronização da psicoterapia oferecida.
A nova exigência pode atrasar em cinco anos a autorização para tratamentos com MDMA. Ele é aguardado com ansiedade por pessoas que sofrem com estresse pós-traumático, como vítimas de abuso infantil ou sexual, violência urbana e veteranos de guerra (pelo menos 18 destes cometem suicídio nos EUA a cada dia).
Frustraram-se quatro décadas de esforços da Maps para reabilitar MDMA e psicodélicos em geral como remédios. Num lance drástico, o periódico Psychopharmacology cancelou três artigos sobre MDMA, com vários autores filiados à Maps.
A pesquisa, contudo, não parou. Quase todos os dias sai um artigo, ou mais de um, de ciência psicodélica básica ou aplicada. Só em 2024, o ano do anticlímax, foram cerca de 2.000 trabalhos publicados. Na página de registro de testes clínicos clinicaltrials.gov, uma pesquisa com o termo “psicodélico” indicará um total de 598 estudos em andamento ou concluídos.
Um deles, registrado sob o número NCT06094907, foi realizado pelo Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN). Um ensaio de fase 2 com o psicodélico DMT (presente nas bebidas de origem indígena ayahuasca e vinho da jurema-preta) para depressão resistente a tratamento, que demonstrou efeito antidepressivo da DMT sustentado por até três meses.
Dráulio de Araújo, Fernanda Palhano-Fontes, Marcelo Falchi-Carvalho e Nicole Galvão-Coelho, da UFRN, estarão apresentando seus resultados em pelo menos quatro sessões da conferência em Denver. (Aviso aos psiconautas e outros leitores: atuarei como mediador num desses painéis.)
De acordo com Michael Haichin, que preparou uma bibliografia comentada com uma lista de 500 artigos, um dos temas mais debatidos foi precisamente o papel da psicoterapia nos tratamentos psicodélicos. Algo que a FDA e o campo da medicina baseada em evidências tem dificuldade em enquadrar na moldura regulatória, pois nela só cabem variáveis controladas, algo que uma relação entre dois sujeitos (paciente e terapeuta) talvez jamais venha a ser.
Psicodélicos não alteram só o estado de consciência de quem os usa, em geral favorecendo uma flexibilidade mental que pode ser curativa, atuando como um catalisador no processo psicoterapêutico para transtornos do afeto, como ansiedade e depressão. Eles também lançam dúvidas sobre a capacidade de um sistema regulatório fundado na farmacologia para oferecer alívio a milhões de almas que sofrem com os males deste século perturbado.
Em 2023, o presidente dos EUA era Joe Biden. Agora é Donald Trump.
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