Psicodélicos: Falta atenção para mulheres nos estudos – 04/09/2025 – Virada Psicodélica
Testes clínicos com substâncias psicodélicas erodem os alicerces do edifício da pesquisa biomédica, mas se mostram de todo convencionais no desprezo com as diferenças entre homens e mulheres –para não falar de gêneros não binários. Na literatura sobre benefício desses fármacos para dependentes químicos, aponta estudo desta semana, a omissão é flagrante.
Alexandra Wojdyslawski Nigri, então na Universidade de Tel Aviv, levantou 75 artigos em periódicos científicos sobre o efeito terapêutico de psicodélicos como ayahuasca, MDMA, psilocibina e DMT para pessoas que fazem uso problemático de substâncias, como álcool e cocaína. Nenhum deles tinha foco específico em sexo (biológico) ou gênero (social).
“Essa tendência não é exclusiva [da pesquisa psicodélica], é muito mais ampla”, ressalva a psicóloga brasileira de 28 anos. “Não há interesse em olhar para gênero.”
A pesquisadora, que fazia mestrado em Israel ao trabalhar no tema, teve como coautores da revisão no International Journal of Drug Policy Ilana Falcão de Arruda e Catarina Gouveia Ferreira Maia, da USP, além de Luís Fernando Tófoli e Fabio Carezzato, da Unicamp. Ela retornou ao Brasil e retomou o trabalho no Promud, Programa da Mulher Dependente Química do Hospital das Clínicas da USP.
Dos 75 estudos que satisfizeram critérios de inclusão, só 18 tinham amostras de voluntários com proporção equilibrada, definida como no mínimo 45% de mulheres. Nove deles sequer incluíram pessoas do sexo feminino e cinco nem se deram ao trabalho de relatar o sexo biológico dos participantes.
“A maioria dos estudos revisados carecia de uma investigação sobre como gênero ou sexo afetam as respostas dos sujeitos a psicodélicos”, conclui o artigo. “Dado o reconhecimento amplo do papel que gênero e sexo desempenham no tratamento de transtorno de uso de substâncias, tais explorações devem ser encorajadas.”
As diferenças podem ser marcantes. A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE de 2019 estimou que 9,2% das mulheres relataram consumo abusivo de álcool, por exemplo, contra 26% dos homens.
É provável que o dado feminino seja uma subestimativa, dado o estigma social que se atribui a uma mulher alcoolista. O temor de perder a guarda dos filhos e de admitir violência sexual também parece contribuir para dificultar a busca por tratamento.
Tanto o consumo de substâncias quanto o tratamento com psicodélicos podem ser afetados por diferenças biológicas. Mulheres têm maior proporção de gordura corporal, que afeta o metabolismo de drogas, e flutuações hormonais também podem influenciar a tendência para abuso de substâncias.
As poucas pesquisas existentes sobre discrepâncias entre sexos na resposta a drogas se concentram em álcool e tabaco. Já se sabe, contudo, que mulheres podem experimentar efeitos distintos de homens com MDMA, como indicaram Ilana Arruda e Fabio Carezzato noutro trabalho noticiado neste blog em 2023.
MDMA foi a substância psicodélica que chegou mais perto de obter aprovação, para tratar transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) —licença afinal recusada pela agência norte-americana FDA há um ano. “Deu uma bela atrasada em tudo”, lamenta Alexandra Nigri.
Foi a dupla MDMA/TEPT que atraiu a psicóloga quando ainda estava na faculdade. Um familiar com forma grave do transtorno forneceu a motivação para pesquisar alternativas de tratamento e ela ficou sabendo do protocolo capitaneado pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (Maps, dos EUA).
A proposta de psicoterapia apoiada por psicodélicos a cativou pela importância conferida à pessoa nesse processo. “Tem de ter respeito pelo indivíduo, não pode ser uma coisa fria”, defende. “As singularidades importam, e gênero é uma delas. Atenção ao ser humano que está na sua frente.”
Durante o mestrado em Israel, Nigri atuou também como coordenadora de pesquisa no braço do teste clínico da Maps realizado no hospital Shiba.
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